O Rio de Janeiro do século XIX fervilhava com a promessa de uma nova vida. Entre a burguesia emergente e a massa de trabalhadores, chegou João Romão, um imigrante português com os olhos cheios de ambição. Ele não trazia riquezas, apenas uma determinação feroz e a crença de que, se ele trabalhasse mais do que qualquer outro, construiria seu próprio império. Sua primeira aquisição foi um pequeno terreno na zona suburbana, um lugar onde a cidade crescia de forma desordenada, perfeito para seu projeto.
Foi ali que ele conheceu Bertoleza, uma mulher escravizada, forte e resiliente. João Romão viu nela não uma pessoa, mas uma ferramenta. ‘Bertoleza’, disse ele, com uma voz que tentava soar convincente, ‘eu duvido que você encontre outra oportunidade como esta. Trabalhe comigo, e eu lhe darei a liberdade.’ A promessa ecoou no ar como um seducção perigosa. Bertoleza, esperando que suas palavras fossem verdade, aceitou. A exploração começou ali, disfarçada de parceria.
Os dias se transformaram em uma rotina exaustiva. Enquanto João Romão negociava e comprava materiais baratos, Bertoleza carregava tijolos, misturava barro e erguia as paredes das primeiras casinhas. O cortiço nascia, tijolo por tijolo, suor por suor. O trabalho dela era incansável, movido pela frágil esperança da alforria. João, por sua vez, já calculava os lucros. Se ele conseguisse alugar cada cômodo para três famílias, sua fortuna estaria garantida. A ganância era o alicerce invisível de cada construção.
Aos poucos, outras pessoas começaram a se aglomerar ao redor: trabalhadores pobres, libertos, imigrantes como ele. A ideia de coletividade era inevitável naquele espaço apertado, mas João Romão a via apenas como mais uma forma de lucro. Ele observava Miranda, seu vizinho rico, com um misto de admiração e ódio. ‘Um dia’, sussurrava para si mesmo, ‘eu terei uma casa como a dele.’ Enquanto isso, Bertoleza, coberta de poeira e cansaço, esperava que a noite trouxesse descanso e que a promessa de João não fosse uma traição.
O primeiro bloco de casas estava pronto: cubículos escuros e úmidos, mas que significavam ouro para João Romão. Ele já planejava a expansão, imaginando um labirinto de habitações. No fundo de sua mente, um medo secreto o assombrava: o medo de um incêndio, de uma revolta, de perder tudo. Se as pessoas soubessem o quão frágeis eram essas paredes, talvez não pagassem o aluguel. Mas ele abafava esse pensamento. O importante era construir, acumular, subir.
Naquela noite, enquanto Bertoleza dormia no chão duro da obra, exausta, João Romão contava suas moedas à luz de uma vela. Seu rosto era uma máscara de satisfação sombria. As fundações do cortiço estavam lançadas, e com elas, as fundações de sua ganância. A cidade dormia ao redor, ignorante do microcosmo de ambição e exploração que nascia em seus subúrbios. O destino de dezenas de vidas agora estava ligado à vontade de um único homem, um homem que acreditava que tudo, até mesmo a liberdade alheia, tinha um preço.
Summary: Portuguese immigrant João Romão arrives in 19th-century Rio de Janeiro, driven by ambition. He partners with the enslaved Bertoleza, promising her freedom in exchange for her tireless labor to build the first shacks of the tenement, while secretly plotting his own enrichment.
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Vocabulary
| Word | English |
|---|---|
| burguesia | bourgeoisie, the middle/upper class |
| imigrante | immigrant |
| ambição | ambition |
| seducção | seduction |
| exploração | exploitation |
| cortiço | tenement, a type of crowded, low-quality housing |
| trabalho | work |
| coletividade | collectivity |
| traição | betrayal |
| incêndio | fire |
Grammar
Conditional with ‘se’
This structure expresses hypothetical situations and their possible consequences. The ‘se’ clause typically uses the imperfect subjunctive, while the main clause uses the conditional tense. It’s used for unreal or imagined scenarios.
se ele trabalhasse mais do que qualquer outro, construiria seu próprio império
Present Subjunctive for wishes/doubts
The present subjunctive is used after certain expressions that indicate doubt, uncertainty, or desire. It shows that the speaker is not stating a fact but rather expressing a subjective attitude toward the action.
duvido que você encontre outra oportunidade como esta
Expressions
Fervilhar
Literally ‘to simmer’ or ‘to seethe.’ In this context, it describes a place teeming with intense activity, life, and energy. It perfectly captures the chaotic, vibrant, and overcrowded atmosphere of 19th-century Rio de Janeiro.
Ter os olhos cheios de ambição
To have one’s eyes full of ambition. A vivid expression describing someone whose gaze and entire being are consumed by the desire for success, wealth, or power. It implies a singular, almost predatory focus.
A promessa ecoou no ar como uma sedução perigosa
The promise echoed in the air like a dangerous seduction. This phrase uses metaphor to emphasize how an attractive offer (like freedom) can be manipulative and lead to exploitation, highlighting the power dynamics at play.
The 19th-Century Rio de Janeiro Tenement (Cortiço)
The ‘cortiço’ was a quintessential urban housing phenomenon in post-colonial Brazil, especially in Rio de Janeiro. As the city industrialized and attracted former slaves, rural migrants, and European immigrants, overcrowded tenements sprang up to house the poor. They were often owned by ambitious lower-middle-class entrepreneurs like João Romão. These spaces were not just homes but social microcosms where different races, cultures, and struggles violently coexisted, making them a perfect setting for Naturalist literature to study human behavior determined by environment and heredity.
Naturalism’s Determinism and the ‘Human Animal’
Aluísio Azevedo’s Naturalism, influenced by European thinkers like Émile Zola, is evident in this episode. Characters are portrayed as products of their environment, instincts, and social forces. João Romão’s greed is fueled by the competitive, capitalist landscape of Rio. Bertoleza’s hope and labor are determined by her condition as an enslaved woman. The narrative suggests their actions and fates are almost predestined by these powerful external and internal forces (determinism), reducing human drama to a struggle for survival and dominance, much like in the animal kingdom.
The False Promise of Freedom (Alforria)
For an enslaved person like Bertoleza, the promise of ‘alforria’ (manumission) was the most powerful motivator imaginable. However, after the 1871 ‘Law of the Free Womb,’ which declared children of enslaved women free, and especially as abolitionist sentiment grew, promises of freedom were often used as tools of manipulation and control by slave owners. João Romão’s offer is historically plausible—a way to extract maximum labor without a formal wage, exploiting both her physical strength and her deepest human aspiration, a cruel reflection of the era’s social hypocrisy.
Questions
- Qual era a principal motivação de João Romão ao chegar no Rio de Janeiro? (Resposta)
- Como João Romão via Bertoleza quando a conheceu? (Resposta)
- Qual foi a promessa que João fez a Bertoleza para convencê-la a trabalhar? (Resposta)
- Qual era o medo secreto que assombrava João Romão? (Resposta)
- Qual era a reação de João Romão em relação ao seu vizinho Miranda? (Resposta)
- O que o narrador sugere sobre o destino das pessoas que vivem no cortiço? (Resposta)
Multiple Choice
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True or False
- João Romão chegou ao Rio de Janeiro trazendo grande riqueza de Portugal. (Resposta)
- A promessa de liberdade feita por João Romão a Bertoleza é descrita como uma ‘seducção perigosa’. (Resposta)
- João Romão planejava alugar cada cômodo do cortiço para apenas uma família. (Resposta)
- O texto mostra que João Romão tinha medo de que os moradores descobrissem a fragilidade das paredes das casas. (Resposta)
- Bertoleza dormia em condições confortáveis, pois era a parceira de João Romão. (Resposta)
- O narrador descreve o cortiço como um ‘microcosmo de ambição e exploração’ dentro da cidade. (Resposta)
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